Ir para o conteúdo principal

Especiais

fev 11

Written by: admespeciais
11/02/2015 10:10 

Alberto Tsuyoshi Ikeda é licenciado em Educação Artística – Música, pelo Instituto Musical de São Paulo; mestre em Artes, pela Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo (ECA-USP); e doutor em Ciências da Comunicação, pela ECA-USP. Criador e coordenador do Grupo de Estudos: Música Étnica e Popular (Brasil/América Latina). É professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Música, da Escola de Comunicações e Artes da USP e outros programas.

Como surgiu o Carnaval?

No Brasil, o Carnaval está atrelado à presença dos portugueses. Eles trouxeram o entrudo, uma espécie de algazarra de rua; um brincar. Em meados do século XIX começa um carnaval burguês, com bailes de máscaras e sociedades carnavalescas, chamadas grandes sociedades. Essas agremiações estabeleciam temas, sempre havia uma banda pra animar os cortejos, os carros alegóricos e desfiles. Esse era o chamado carnaval veneziano.

O Carnaval, em si, surge na Europa, mas encontramos suas origens até mesmo nas antigas civilizações. Em períodos de colheita e com a chegada da primavera, se faziam grandes festas, tidas como pagãs. Havia muita fartura e bebida para celebrar o ‘retomar’ da natureza. Embora ditas profanas, ainda tinham conteúdo religioso; o culto aos deuses, aos espíritos e mitos romanos: as “saturnais”, por exemplo, festas ao deus Saturno. Vale lembrar que Saturno, da mitologia romana, era o deus protetor da agricultura. Uma sociedade próxima à natureza celebrava isso; eram festas ecológicas. Ou seja: as festas dos antigos romanos e gregos contribuíram para o carnaval que vemos hoje.

O samba é o ritmo predominante do Carnaval? O que os enredos têm a dizer sobre a sociedade brasileira? Eles são uma crítica social?

O samba passou a ser predominante a partir da década de 70. Antes, a presença das marchinhas era maior. Nos últimos quinze, vinte anos, os blocos usavam todo tipo de música. Mas ainda há uma multiplicidade de ritmos. Tem ritmo de cururu, caboclinho, maracatu. Em função do que é transmitido pelos meios de comunicação, prevaleceu o samba. Em São Paulo tem bloco que é acompanhado por grupo de forró; tem o Sargento Pimenta, que toca The Beatles em ritmo de marcha. Voltou a ser multirrítmico. No século XIX dançava-se quadrilha no Carnaval, não era em festa junina.

A partir de 1937, se propôs que as escolas de samba deviam ter temas alusivos ao Brasil. Isso porque – no governo Getúlio Vargas – vivíamos um período nacionalista. Até os anos 70, os enredos das escolas de samba eram uma forma de exaltar as figuras históricas importantes. Era o samba exaltação. Mas o samba sempre foi um elemento de crítica, como por exemplo: “Rio de Janeiro, cidade que nos seduz. De dia falta água, de noite falta luz”. Ou “Tomara que chova três dias sem parar”. Antes de Getúlio Vargas, eram instrumentos de crítica social. Os temas, que permanecem atuais, tinham relação com o cotidiano.

Qual é a origem das marchinhas e por que as famosas são justamente as mais antigas?

Em 1899, Chiquinha Gonzaga criou a primeira marcha, “Ô Abre-Alas”, a pedido do rancho (ou cordão) carnavalesco “Rosas de Ouro”, no Rio de Janeiro. A marcha de rancho é importante historicamente. Mas as marchinhas proliferaram a partir da década de 20. Já na década de 70, as escolas de samba passaram a ser valorizadas. O Carnaval passou a ser muito assistido e os bailes perderam espaço, assim como as marchinhas.

Quais aspectos do Carnaval podem ser estudados em sala de aula? O aprendizado abrange todas as disciplinas do currículo escolar?

Todas as letras de enredo, mas, sobretudo as marchinhas, tinham que ser aproveitadas pelo professor. Elas agradam as crianças pela questão rítmica e ainda têm temas transversais. Elas falam da realidade. Por exemplo, a letra de “Vagalume”: “Não tem água... não tem. Vou pra floresta pegar vagalume”. Dá para estudar Ciências, Biologia, preservação ambiental. Com uma única música dá pra falar de muita coisa. Preconceito racial, machismo: “Linda morena, que me fez penar”. “Pierrot apaixonado” envolve as relações humanas e da própria História, a “Commedia dell’arte”. “Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô, Mas que calor, ô ô ô ô ô ô”, tem as questões climáticas. Pode abranger qualquer disciplina, não precisa ser professor de música. É muito comum, em músicas populares, ter erros ou coloquialismo. Isso pode ser tratado em uma aula de Língua Portuguesa. “Mamãe eu quero mamar” pode tratar do aleitamento materno e saúde. Basta um refrão ou dois e já dá para se trabalhar. Afinal, o compositor é um cronista.

Tags:

Busca em Especiais: